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Quinta-feira, 07.06.2012

Ela gere as 25 mil garrafas do Yeatman

Beatriz Machado

Foto: DR

Já todos quisemos ser várias coisas quando éramos pequenos e Beatriz Machado não foi excepção. Primeiro, quis ser médica; depois, diplomata; os testes psicotécnicos recomendaram-lhe economia. Hoje, tem 31 anos e é a directora de vinhos do hotel The Yeatman, em Gaia.

Na primária era muito boa aluna, mas a partir daí as coisas complicaram-se. “Tinha de ter uma atitude inteligente, porque andei a brincar durante não sei quantos anos, e escolher alguma coisa relacionada com comida — porque adoro comida — que tivesse futuro. Então fui para Engenharia Alimentar”, explica Beatriz Machado.

“Andei a ver os cursos da Católica e descobri que no último ano havia um estágio no estrangeiro”, conta.

A paixão pelos vinhos começou em pequena — quando o seu pai e avós lhe davam a provar o néctar dos deuses — e perdurou até aos seus tempos de faculdade.

“Quando ia para a Queima das Fitas levava sempre uma garrafa de água Luso com vinho dentro, nunca bebia cerveja”, revela.

Ares da Califórnia

Foi assim que, no último ano de curso, rumou até à Califórnia e foi estudar vinhos. Mais tarde, voltaria à Universidade Católica para leccionar, mas esta não seria a sua última vez na costa Oeste dos Estados Unidos.

“Voltei para a Califórnia para estudar mesmo vinho a sério. Disse ‘Não posso estar a ensinar aos alunos a parte conceptual do processo sem ter feito um vinho e perceber mesmo o produto’”, recorda.

Apesar da análise sensorial (área em que se especializou) ser algo que se pode aprender, Beatriz sempre confiou no seu nariz e garante que o “jeitinho especial” ajuda sempre. “A análise sensorial não é só a prova de vinhos, é aprender uma linguagem nova”, explica. “Quando eu cheiro banana num vinho, percebo logo o que o enólogo fez, mesmo sem falar com ele”.

A especialista em análise sensorial de vinhos descreve a experiência de estudar nos Estados Unidos como “espectacular”. “A mentalidade americana é ter a sensação de que não há limites, tudo depende de nós: se damos mil, recebemos mil; se damos mil e um, recebemos mil e um”, afirma. “Aqui, isso nem sempre é verdade: se se dá mil pode-se receber 5 ou 2 mil. Lá existe o conforto de saber que as coisas dependem de nós”.

Duas realidades

A ex-professora já deu aulas em Portugal e nos Estados Unidos e afirma que “a diferença é abismal”. “Nos Estados Unidos valoriza-se muito a educação — mal se nasce, os pais já estão a fazer planos de poupança para os filhos irem para a universidade”, diz. “Se a aula começa às 8h, 5 minutos antes já está toda a gente pronta. Quando dei aulas aqui, se as pessoas chegassem atrasadas a porta estava fechada”.

A culpa? Um “problema cultural”. “Posso parecer um pouco negativa quanto aos portugueses, mas há muitas pessoas que não se esforçam para nada“, acrescenta. “Eu vim trabalhar e o meu filho tinha um mês e meio. Se foi fácil? Não, mas vi que era a minha oportunidade e empenhei-me”.

Carreira no mundo hoteleiro

Apesar de os seus planos nunca terem passado pela hotelaria, seria neste ramo que Beatriz Machado viria a assentar. Hoje, como directora de vinhos do hotel The Yeatman, é responsável por uma garrafeira com 25 mil garrafas. Agrupa os vinhos e gosta de pensar que, por não estar “formatada” para hotelaria, consegue chegar mais depressa àquilo de que os clientes gostam.

“Presto atenção a detalhes, que é o que os clientes da hotelaria de luxo procuram — querem sentir-se únicos e numa relação mais pessoal com o staff“, afirma. “O que para mim é muito simples às vezes não é aplicado na realidade de um hotel. Em hotelaria é tipo tropa, eles são formatados para fazer determinadas coisas”.

Recentemente, lançou a edição de Verão da carta de vinhos do The Yeatman, que consiste numa viagem a Portugal em 82 vinhos a copo. Os preços variam entre os 5 e os 100 euros (no caso de um copo de Scion, o vinho do Porto mais antigo de sempre).

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